O lançamento do livro digital “A ciência dos ‘excluídos’: histórias em quadrinhos“ marca um passo significativo na construção de um ensino de Física mais plural, crítico e representativo. Organizada pela professora de Física Rafaelle Souza e pela estudante do curso de Licenciatura em Física Camila Fernandes, ambas do campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), a obra propõe uma ruptura com a lógica eurocêntrica ainda predominante na formação científica.
A publicação é gratuita e, de acordo com profa. Rafaelle, nasce do entendimento de que a invisibilização das contribuições científicas e tecnológicas dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas, somada à exaltação quase exclusiva da ciência europeia, constitui uma estratégia histórica de manutenção do eurocentrismo no campo científico. Diante desse cenário, o livro busca tensionar essa lógica e ampliar o olhar sobre o que se reconhece como ciência.

O projeto foi desenvolvido a partir de uma sequência didática elaborada no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), com foco na implementação de uma proposta de ensino de Física orientada por uma perspectiva decolonial. Como resultado, a obra reúne histórias em quadrinhos produzidas por estudantes do 1º ano dos cursos técnicos em Química, Eletrônica e Edificações do IFBA.
Durante as aulas de Física, o(a)s aluno(a)s tiveram contato com conteúdos que abordaram as contribuições de povos negros e indígenas para a ciência, temas ligados à astronomia e a trajetória de cientistas negro(a)s contemporâneo(a)s. A proposta pedagógica incentivou o(a)s estudantes a ressignificarem sua compreensão sobre a ciência, reconhecendo-a como um campo plural, atravessado por múltiplas epistemologias.

Para Camila Fernandes, estudante da Licenciatura em Física e uma das organizadoras da obra, a experiência reafirma a importância de um ensino comprometido com a diversidade. “O ensino de Física em uma perspectiva decolonial é fundamental para atribuir sentido à ciência e torná-la mais acessível e plural. A produção dos estudantes evidencia a perspectiva de Paulo Freire na educação, ao afirmar que ‘não há docência sem discência; as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro’”, destaca.
O e-book possui 102 páginas e conta com o prefácio da cientista Sônia Guimarães, primeira mulher negra a obter o título de doutora em Física no Brasil. Além de inspirar o projeto, Sônia visitou o campus Salvador, em abril de 2025, num momento considerado histórico para a instituição. Sua presença fortaleceu os debates em torno da pesquisa “Descolonizando o Ensino da Física: em busca da implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008”, que tratam da obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena.
Na sinopse, “Ciência dos Excluídos” se apresenta como um chamado para romper silêncios e transformar o ensino de Física em um espaço de pertencimento, representatividade e valorização da diversidade étnico-racial e cultural. Ao provocar reflexões como “quem foi apagado da história da ciência que estudamos?” e “quais vozes precisam ser ouvidas?”, a obra convida a juventude a se reconhecer como parte da história e do futuro da ciência.
por Andréa Costa /IFBA campus Salvador — publicado: 02/02/2026 16h46, última modificação: 02/02/2026 16h46